
1 Introdução
O presente trabalho é parte de uma pesquisa de Mestrado em Educação em Ciências e Matemática, com término previsto para o final de 2007, cujo objetivo é investigar as perspectivas de alunos de Ensino Médio a respeito da Matemática no contexto da sociedade em que estão inseridos, identificando suas visões e opiniões sobre essa ciência e as influências sócio-culturais que atuam sobre eles. A investigação teve início em 2006, com alunos do segundo ano do Ensino Médio de uma escola da Grande Porto Alegre, tendo continuidade em 2007, com estudantes de uma turma do terceiro ano da mesma escola. Apresentamos os pressupostos teóricos que apóiam as principais idéias da investigação e da metodologia de pesquisa. Descrevemos, também, uma atividade já realizada com os participantes, bem como sua análise.
2 A Matemática e os Alunos do Ensino Médio: a Origem das Investigações e o Problema de Pesquisa
Muitos alunos concluem o Ensino Médio sem ter uma idéia clara do que realmente é a Matemática, da origem de seus conteúdos e do significado de suas expressões e aplicações. Dentre esses estudantes, poucos acreditam tirar proveito dos conteúdos de Matemática no futuro. Também a linguagem matemática empregada oralmente ou por escrito, quando desprovida de significados, também acarreta sérias dificuldades no aprendizado dessa disciplina. Ponte (1994, p. 2) diz que:
Para os alunos, a principal razão do insucesso na disciplina de Matemática resulta desta ser extremamente difícil de compreender. No seu entender, os professores não a explicam muito bem nem a tornam interessante. Não percebem para que serve nem porque são obrigados a estudá-la. Alguns alunos interiorizam mesmo desde cedo uma auto-imagem de incapacidade em relação à disciplina. Dum modo geral, culpam-se a si próprios, aos professores, ou às características específicas da Matemática.
A realidade das escolas onde leciono atualmente mostra que o aluno está condicionadoa considerar a Matemática uma disciplina desnecessária e de difícil compreensão. Essa crençaprovém da própria sociedade, que contribuiu, e ainda contribui, para que a Matemática tenhaessa imagem. Ubiratan D’Ambrósio (1996, p.15), ao falar sobre Educação, deixa claro que:
[...] estamos falando da intervenção da sociedade nesse processo ao longo daexistência de cada indivíduo. Essa intervenção deve necessariamente permitir queesse processo tenha seu desenvolvimento pleno, estimulando a criatividadeindividual e coletiva. Cada indivíduo deve receber da educação elementos eestímulos para levar ao máximo sua criatividade, e ao mesmo tempo integrar-se auma ação comum, subordinada aos preceitos e normas criados e aprimorados aolongo da história do grupo cultural (família, comunidade, tribo, nação) ao qual elepertence, isto é, da sociedade.
É nesse meio que o aluno deve perceber a Matemática em sua vida, considerando-auma necessidade natural, científica e social. Se a sociedade, a comunidade escolar e, talvez, ospróprios professores não estabelecem essas relações e conexões, que motivação e interesse eleterá para estudar essa disciplina?
Acredito que é preciso refletir sobre o ponto de vista do aluno, que parece tantas vezesdesconsiderado. Seria interessante ter uma noção de como os estudantes relacionam a Matemática com seu cotidiano e quais são as suas perspectivas em relação ao que elesaprendem na escola e a necessidade desse conhecimento no seu futuro. Será que ascompetências desenvolvidas em Matemática na escola são as mesmas exigidas no dia-a-diadesses alunos? O que a Matemática ensina para eles?
Partindo dessas idéias, surgiram as questões da pesquisa aqui relatada: Como osalunos relacionam a Matemática com as ciências e a sociedade? Que relação eles fazem entrea Matemática aprendida na escola e o seu dia-a-dia? Os alunos são capazes de seposicionarem criticamente e debaterem assuntos envolvendo Matemática na sociedade? Quaissuas perspectivas para o uso da Matemática no seu futuro?
3 Educação Matemática Crítica: da Matemática para a Sociedade
A Matemática torna-se, muitas vezes, distante de seus significados e objetivos naEducação Básica, devido à maneira como é abordada e a ênfase dada somente à simbologia enão ao contexto, ou seja, ao fato de se apresentar como uma ciência isolada e que não estápresente no cotidiano. A Matemática vista dessa forma torna-se apenas uma ferramenta de uso profissional e científico e não uma linguagem usual e necessária para a vida dos estudantes nacompreensão do universo e da realidade que os cerca.
Na visão de Skovsmose (2001), ensinar uma Matemática mais significativa e voltadapara aos interesses sociais é educar democraticamente, visando alcançar a todos, para que asociedade possa participar, discutir e refletir as influências dessa ciência no dia-a-dia,formando um cidadão crítico. A estrutura com que a Matemática é apresentada nas escolasdesarticula a educação crítica, descartando a possibilidade de envolver aspectos políticos naEducação. Concretizar a Matemática, tirando-a da abstração, é envolvê-la na sua construção ecomunicação com a realidade, é torná-la uma ciência de uso cotidiano ao alcance de todos,democratizando esse conhecimento.
A distância entre os objetivos previstos nos currículos e a realidade do aluno deve-se,em geral, a uma forte abordagem mecanicista, a uma aprendizagem por repetição. Oentendimento e o significado dessa disciplina afastam-se cada vez mais da sociedade escolar.Dessa maneira, a Educação Matemática perde o elo com a sociedade, os cidadãos deixam departicipar criticamente dos diversos empregos dessa ciência no dia-a-dia e na vida. PauloFreire defende esses pensamentos no trecho abaixo:
Eu acho que uma preocupação fundamental, não apenas dos matemáticos mas detodos nós, sobretudo dos educadores, a quem cabe certas decifrações do mundo, euacho que uma das grandes preocupações deveria ser essa: a de propor aos jovens,estudantes, alunos homens do campo, que antes e ao mesmo em que descobrem que4 por 4 são 16, descobrem também que há uma forma matemática de estar nomundo. (FREIRE apud D’AMBRÓSIO, 2006, p. 4).
A atual situação da sociedade exige uma formação crítica de indivíduos, relacionada àpolítica e aos problemas sócio-culturais, diferente do pensamento tradicional de formação dealunos no antigo 2º grau (Ensino Médio), denominado “preparação para o trabalho”, existentehá alguns anos. Uma formação com ênfase na preparação para o trabalho não necessita detomadas de decisões e posicionamentos críticos, limitando o espaço para um conhecimentoreflexivo.
Os livros didáticos atuais trazem, na sua maioria, conteúdos contextualizados e oscurrículos previstos para o ensino de Matemática mostram-se de acordo com esses ideais. Asociedade evolui rapidamente e a Educação se encontra a alguns passos atrás, caminhandolentamente na medida em que os educadores estão sendo alertados sobre as necessidades dereavaliar as competências propostas pela Educação Matemática.
4 Alfabetização Matemática: o Ensino de Matemática e suas Competências
A alfabetização matemática pode ser considerada como um conjunto de competênciasque permite que o aluno se envolva com o processo de construção de modelos matemáticos,preocupando-se com os resultados na sociedade fora da escola, compreendendo einterpretando a linguagem matemática presente nas mais diversas dimensões sociais,entendendo e questionando os algoritmos usados em seu contexto Steen (2001, p. 5) chama dealfabetização quantitativa a idéia na qual:
Cidadãos quantitativamente alfabetizados precisam conhecer mais que fórmulas eequações. Eles precisam de uma predisposição para olhar o mundo através de olhosmatemáticos, para ver os benefícios (e riscos) de pensar quantitativamente acerca deassuntos habituais, e para abordar problemas complexos com confiança no valor doraciocínio cuidadoso. Alfabetização quantitativa dá poder às pessoas ao fornecerlhesferramentas para que pensem por si próprias, para fazer perguntas inteligentesaos especialistas, e para confrontar a autoridade com confiança. Estas sãohabilidades requeridas para prosperar no mundo moderno.
Como afirma Skovsmose (2001), a Matemática acaba por formatar a sociedade, e elefaz essa afirmação levando em conta o fato de que a Matemática faz, cada vez mais, parte dodesenvolvimento social:
Se “subtrairmos” a competência matemática da nossa sociedade altamentetecnológica, o que fica? O resto não poderia ter muito em comum com a nossasociedade atual. Isso significa que a matemática tornou-se parte da nossa cultura(SKOVSMOSE, 2001 p. 99)
A Matemática faz parte também da cultura, seja na economia, na tecnologia, nocomércio ou mesmo nas atividades mais simples do cotidiano. As pessoas, na maioria, estãocientes de que a Matemática está inserida em suas vidas, mas não se dão conta de que suasaplicações envolvem grandes decisões e movem a sociedade de forma implícita.
5 As Ciências e a Matemática
De acordo com Kuhn (2005), o conhecimento científico é provisório, carregado dehistória e significados. Essa idéia vai além do acúmulo de informações e regras muitas vezesditas como conhecimento científico. A Física ou a Química, por exemplo, trazem uma cargade significados e conceitos construídos e reconstruídos por meio de revoluções e convenções de uma sociedade científica vigente. Já a Matemática destaca-se nesse meio por suas fórmulaspré-determinadas na aplicabilidade de muitos fenômenos estudados nas ciências em geral.
O sucesso da Matemática como ferramenta de uso indispensável nas ciências exatas —a própria palavra “exata” já tem cunho matemático — vigora há algum tempo. SegundoSantos (2006, p. 27), “A matemática fornece à ciência moderna, não só o Instrumentoprivilegiado de análise, como também a lógica da investigação, como ainda o modelo derepresentação da própria estrutura da matéria.”. O reflexo desse potencial da Matemática,hoje, se apresenta na Educação através da repetição de modelos e práticas exaustivas.
CONTINUA...